#101: Luz dos Olhos

O que você faria no seu trabalho que não fizeram ainda? 

Com essa pergunta começou meu estágio em Marseille. Pergunta assustadora, confessor. Talvez porque ninguém nunca tenha me perguntado isso. Talvez porque alguém já devesse ter me perguntado isso antes. A resposta, bem, eu não consegui responder imediatamente, o que foi um bocado frustrante.  

A diferença entre como se lida com o trabalho e com a ciência ficou evidente logo nesses meus primeiros minutos com o professor Barbatti. Por mais que tivéssemos um planejamento do que seria feito, muitos pontos ainda estavam em aberto e era necessário decidir como aproveitar melhor o pouco tempo que terei aqui. Agora está claro também como será pouco tempo. 

O aproveitamento do tempo de trabalho é, provavelmente, a maior diferença em relação ao que é feito no Brasil. É incrível como se consegue fazer tanto em tão pouco tempo, como o foco é total durante as horas na universidade. Já em casa, bem, aí você faz o que quiser fazer (como em todo em qualquer trabalho normal e saudável!). A estrutura da Aix-Marseille Université não é nada de outro Mundo, é totalmente tangível por uma gigante brasileira, como a UFRJ, se tivesse um gestão profissional e focada na qualidade de ensino, pesquisa e condições de trabalho. Infelizmente, estamos batendo cabeça com ideias conservadoras, ultrapassadas e falta de reconhecimento da sociedade e investimento do governo.

Cheguei à Marseille em uma véspera de um feriado nacional, que só tomei conhecimento depois de chegar na França. Aproveitei para me ambientar e conhecer um pouco a cidade. É muito diferente de Paris, sendo menos européia e mais mediterrânea. Muitos árabes e muçulmanos nas ruas e na própria cultura. Curiosamente, a cidade me lembra o Rio de Janeiro em sua zona portuária recém-revitalizada. Até o tal do trenzinho VLT tem por aqui!

O local que estou alojado, casa das avós de uma amiga da Laura, é incrivelmente bucólico e acolhedor. As moças são muito legais e estão me ajudando bastante, apesar do meu francês precário. Apenas é muito afastado do centro da cidade, o que me obriga a planejar melhor as saídas e compras de supermercado.

Quando estou longe de casa costumo ter saudade de músicas do Brasil, bem brasileiras. Esse disco acústico da Cássia tem me acompanhado desde que saí de casa e vem com essa pérola do Nando Reis no meio dela, que cantarolo enquanto caminho pelo frio. É muito acolhedor, assim como a minha morada aqui.

Quanto à pergunta lá do início, bem, tenho pensado nisso quase todo o tempo. É terrível porque chega a colocar dúvidas de como fim parar num fim de doutorado sem essa resposta, se estou mesmo no caminho certo escolhendo essa carreira e se estou preparado para esse mundo científico daqui de fora. Ao menos já começo a esboçar algumas respostas para a questão científica, ao contrário das existenciais.


"Os meus olhos vidram ao te ver
São dois fãs, um par
Pus no olhos vidros pra poder
Melhor te enxergar
Luz nos olhos para anoitecer
É só você se afastar
Pinta os lábios para escrever
A tua boca em mim
Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a lua irradia a glória

E eu te chamo
Eu te peço, vem
Diga que você me quer
Porque eu te quero também"

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