#092: Alagados
Não tem sido exatamente os melhores dos tempos por aqui.
Nos últimos dias, um aluno da Universidade foi encontrado morto no campus. Diego Machado era aluno de um dos cursos da Faculdade de Letras e teria sido alvo de um crime de homofobia e racismo. Era ativista e havia denunciado abusos cometidos pela segurança particular da Cidade Universitária contra outros alunos moradores do Alojamento. É um retrato da sensação de insegurança que nos permeia, em meio à crise econômica do Estado, combinada com o preconceito e a opressão presente na própria alma da UFRJ em sua origem. Deveriam ser dias para que as atividades fossem paradas e esse caso fosse lembrado e discutido. Ao contrário disso, ao chegar no campus, tudo que temos é uma festa bizarra de recepção de calouros e professores que seguem só preocupados com seus currículos como se nada tivesse acontecido. Só consigo ficar triste.
Depois dos tempos difíceis de doença em casa e agora preparação para as provas da Jessica. É muito impotante que corra tudo bem e ela tem se esforçado para isso. É lidar com a ansiedade e apreensão. Eu tento ajudar como posso, com as tarefas de casa e tudo o mais. Com isso, o rendimento do trabalho não tem sido exatamente dos melhores e espero pode colocar isso em ordem logo. Tenho um monte de coisas atrasadas para terminar já. Comprei até alguns livros, que encontrei em uma livraria do Centro, com a taxa de bancada.
No fim de semana fomos à um show da Suricato e Os Paralamas do Sucesso, aqui na Lapa. Foi a primeira vez que fui a um show dos Paralamas, que já tinha vontade a bastante tempo. Uma banda que tocava muito lá na minha infância/adolescência, especialmente um disco Longo Caminho de 2002, gravado após o acidente de parapente sofrido por Herbert Vianna, líder dos caras. Canções que faziam parte das viagens de ônibus em passeios de escola, dos primeiros shows nacionais em DVD que me lembro de ter assistido, de tocar nos karaokês por aí. E a apresentação foi ótima. Sucesso atrás de sucesso, cheios de energia e emoção. Era um show que eu precisava ir.
Alagados é uma canção que tem tudo a ver com a minha Trilha de Doutorando. Para minha felicidade, pude incluí-la na sua melhor forma: assistindo ao vivo. Para quem não sabe, a Cidade Universitária da UFRJ, onde realizo minhas atividades de pesquisa e estudo, fica localizada na Ilha do Fundão, às margens da gigantesca Favela da Maré, citada na canção. Ter, do seu laboratório, a vista de um local onde outras pessoas vivem em condições tão desumanas e desiguais. Sob essa perspeciva, discutir ciência de alto nível, de altos e mal administrados investimentos, parece uma grande bobagem. É até um deboche com um povo que vive sem saneamento básico e segurança.
É claro que eu entendo o papel da ciência e da educação na mudança desse quadro e a grandeza da oportunidade de poder obter um título de Ph.D. em meio a tantos problemas. Infelizmente, muitos não entendem. Diria até que muitos preferem não entender. Não olhar pela janela de suas salas e laboratórios. Encher o currículo e ir para casa, como se não tivesse nada a ver com isso. Como não tinham nada a ver com o caso de o estudante nordestino ascendente assassinado.
Costumo dizer que é a minha trilha de todas as manhãs, quando me uno a diversos outros brasileiros, desafiados pelo sol de todo dia, a enfrentar as adversidades encontradas nesse país para poder trabalhar, viver e até contribuir com o futuro. A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê.
"Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo, quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê"