#087: Que País É Esse?

Me permiti fazer uma pausa aos causos e percausos de doutorando neste momento para contar um pouco do que se passa nesse Brasil. Vivemos uma crise política muito grave, muito mais do que a tal crise econômica que os telejornais gostam tanto de falar. O país vive uma espécie de divisão forçada, alimentada por políticos que não souberam perder as últimas eleições para presidência. Vende-se uma cultura de guerra polarizada. Direita contra Esquerda. E as redes sociais também se resumem a isso.

Hoje foi armado o maior circo de todo esse período. A nossa nada ilustre Câmara de Deputados votou, por 367 a 137, a favor da continuidade do rito de impeachment da presidente Dilma Rousself, encaminhando-o para o Senado Federal. O circo foi dado pelas terríveis justificativas de voto, calcadas em querer "o meu Brasil de volta", em nome da família, de Deus, contra a crise, pelo aniversário dos filhos, até irreais citações ao próprio torturador da presidente Dilma durante os anos de ditadura, e tudo mais que (não!) tinha qualquer relação com os crimes de responsabilidade fiscal que justificam o processo. Não poderia ser pior do que com a maior emissora de televisão do país transmitindo na íntegra (isso mesmo, um dia inteiro de votação e nenhuma outra programação!).

Antes disso, foram semanas de manipulação absurda de seu presidente Eduardo Cunha, em ordem de executar uma vingança quase que pessoal e, de brinde, que seu partido receba dos céus o cargo da presidência da República na figura de Michel Temer. Cunha, literalmente, fez o diabo. Correu com processos contra o Governo, enquanto congelou tudo o que poderia lhe incriminar nos escândalos de corrupção. Na reta final da votação, diversos partidos, que durante anos formaram a banca do governo do PT, o apunhalaram pelas costas em trocas de cargos e benefícios em um eventual novo governo do PMDB.

A tendência é que, no Senado, o processo também vá adiante. É improvável que seja barrado na primeira votação, que pede afastamento da presidente Dilma por 180 dias. Mais improvável ainda que seja ela retorne após esse período.

Verdade seja dita, o segundo mandato da presidente Dilma praticamente não existiu. Depois dos contraditórios resultados das eleições de 2014, um parlamento de oposição conseguiu barrar toda e qualquer medida necessária para que o país retomasse seus rumos. E todos sabem que vão ter que fazer todas essas coisas depois que concretizarem seu golpe.

Quem mais perde é o próprio Brasil. Independente do que faça de diferente o governo que vier, a democracia toma mais um duro golpe. O impeachment em menos de 30 anos de democracia. E, curiosamente, o mesmo partido deve assumir o poder depois dele. Tenho medo de que a credibilidade do sistema democrático e, até mesmo, a fé do povo na capacidade transformadora que seu voto pode ter se esfacelem depois disso. Por que se preocupar em quem votar se, no fim, as classes detentoras dos recursos financeiros podem tramar e patrocinar seus "protestos legítimos", com destaques nas maiores mídias, e mudar o resultado?

O Brasil caminhava em uma direção positiva nos últimos anos, principalmente no que se diz respeito às áreas de educação, ciência e tecnologia. Cada vez mais brasileiros, de diferentes classes sociais e regiões, passaram a ter acesso à formação de nível profissional e até acadêmica. A produção de conhecimento então, basicamente bancada pelo governo, fica com piores perspectivas de investimentos, tanto de estrutura quanto de pessoal. Agora o futuro é mais turvo do que nunca foi. Que país será esse?


"Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?"

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