#074: Naquela mesa
Há mais ou menos cinco anos atrás, perdíamos, em um terrível acidente de trânsito, nosso amigo Erick Libório. Voltávamos para nossas casas conversando e brincado, depois de um dia de Universidade. Atravessava a rua quando fora atingido por um ônibus e não resistiu. As semanas seguintes foram os tempos mais difíceis de toda a graduação.
Erick foi a primeira pessoa com quem falei ao entrar na UFRJ (descontando os conhecidos do tempo de Cefet-Química). Nos conhecemos na fila da matrícula enquanto ele reclamava dos pernilongos, indagava se eu gostava de Slipknot e contava que deixara uma oportunidade de jogar no Madureira para fazer faculdade. Sua presença em nossas vidas foi extremamente intensa, com seu implacável senso de humor (e até mesmo de bullying), inteligência e humanidade acima da média. Passamos por coisas incríveis juntos, como quando assistimos a final do Campeonato Brasileiro de 2009 em um telão na rua. Na época, iniciávamos um projeto musical bastante peculiar juntos, enquanto compartilhávamos planos para formatura e pós-graduação.
E tanto tempo depois também é marcado por uma fatalidade. No último dia do SBQT, enquanto já fazíamos o check-out e nos preparávamos para uma bem-vinda volta para casa, nosso companheiro de laboratório Pedro Schames sofreu um acidente na piscina do hotel, seguido por afogamento. Após horas em cuidados no hospital, também não resistiu e se foi.
Pedro já havia passado por um acidente grave anteriormente, mergulhando em alto mar, que o tornara cadeirante para toda a vida. Não se abateu por isso. Era, provavelmente, o maior atleta entre todos nós do grupo, realizando até mesmo travessias marítimas, surfando e ministrando aulas de dança. Tinha uma vida plenamente ativa e independente, nos limites de suas possibilidades físicas. Para sua mente, muito mais era possível. Havia sido premiado como um dos melhores posters do evento, na noite anterior. Se destacava por dedicação, superação e, sem dúvida alguma, sua positividade.
Passamos muito pouco tempo em sua companhia. Diria que era o tipo de pessoa com quem você não tem muitas histórias para contar, mas que muitas outras pessoas também terão. Era pouco Pedro para tanta gente neste planeta e precisávamos saber dividir.
As próximas semanas serão, mais uma vez, difíceis para todos nós. Provavelmente, as mais difíceis de todo este doutorado. Ao menos a experiência anterior nos ensina o que fazer. É preciso reunir a todos e preencher este vazio com nossa própria companhia e amizade. Guardar e lembrar dos bons momentos e não se render à tristeza e aos questionamentos. Buscar a felicidade, com a intensidade que ambos buscaram.
A Trilha da Vida é completamente imprevisível. Não é construída para fazer sentido e trazer respostas. Apenas é como é. A ciência e a música são só duas coisas que a gente inventa para passar o tempo enquanto caminha por ela e não podemos esquecer que não são as únicas.
Antes de começar, pensei que esse seria o post mais difícil de escrever de toda essa Trilha. Agora, quando o termino, não tenho dúvidas de que será o mais difícil de reler.
"Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim"
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim"